sexta-feira, 27 de outubro de 2023

AS SINAGOGAS DE BEIRUTE E DAMASCO! (Guga Chacra — O Globo, 26)

 

AS SINAGOGAS DE BEIRUTE E DAMASCO!

(Guga Chacra — O Globo, 26) Há uma sinagoga chamada Maghen Abraham, que fica no antigo bairro de Abu Jamil, no centro de Beirute. Visitei tanto quando estava destruída como depois de reformada. Circulei pelo bairro judaico de Damasco e vi suas sinagogas vazias. As famílias judaicas já foram proeminentes em Aleppo. Os judeus chegaram a representar entre um quinto e um terço de Bagdá até o fim da Primeira Guerra — mais do que a proporção de seguidores do judaísmo em Nova York atualmente. Já houve expressivas populações judaicas também em Sídon, Alexandria, Cairo e Jerusalém.

Até o início do século XX, os judeus viviam em melhores condições no Levante, como é conhecida essa região do Mediterrâneo Oriental, do que em qualquer lugar da Europa, onde sempre foram perseguidos. O mundo árabe-levantino, embora dominado pelos muçulmanos sunitas, era multirreligioso e tolerante para padrões da época. Habitantes estavam acostumados a passar diante de igrejas, mesquitas e sinagogas, tendo amigos de diferentes fés.

Judeus, cristãos e muçulmanos de Aleppo, Alexandria, Bagdá e Beirute falavam a mesma língua, andavam nas mesmas ruas e comiam a mesma comida. Era um cenário bem distinto da cristandade europeia, onde a minoria judaica sofria perseguição e quase inexistia população muçulmana fora das áreas otomanas europeias. Basta lembrar que judeus sefarditas fugiram da Inquisição na Península Ibérica para buscar abrigo no Império Otomano. Não havia guetos nas metrópoles árabes-levantinas, diferentemente das cidades europeias.

A noção de conflito antigo entre árabes (muçulmanos e cristãos) e judeus (incluindo os árabes) é incorreta. Trata-se de um fenômeno recente, iniciado com os mandatos francês e britânico nos pós-Primeira Guerra. Nos anos que se seguiram à independência de Israel em 1948, passou a se intensificar um sentimento antijudaico que se refletiu na expulsão ou saída de muitos judeus de Egito, Iraque e Síria (no Líbano, o processo foi distinto e mais tardio), ao mesmo tempo que palestinos cristãos e muçulmanos foram expulsos ou saíram do que hoje é Israel.

Avi Schlaim, um dos maiores historiadores israelenses, lançou agora livro autobiográfico sobre a sua identidade judaico-árabe. Judeu de Bagdá, ele descreve como foi esse movimento de deixar lugares como a atual capital do Iraque para ir viver em Israel em meio a judeus asquenazes, que lideravam o movimento sionista. Houve um natural choque inicial. Posteriormente, muitos judeus oriundos do mundo árabe, e em especial seus descendentes, se tornaram das mais radicais figuras da sociedade israelense, adotando um sentimento antiárabe, como se árabes fossem apenas os muçulmanos e os cristãos e ignorando a convivência religiosa do passado, incluindo em Jerusalém.

Paralelamente, no mundo árabe levantino, a herança judaico-árabe foi esquecida, e os judeus (árabes e europeus) passaram a ser vistos como algo ligado ao imperialismo ocidental e não como pessoas que viveram por séculos ao lado de muçulmanos e cristãos. Ao longo das décadas seguintes, enquanto a Europa, incluindo a Alemanha, passou a combater o antissemitismo, o ódio aos judeus cresceu entre populações árabes-levantinas. Ficou mais seguro para um judeu viver em Berlim, onde houve o Holocausto, do que em Aleppo e Bagdá, que eram muito mais tolerantes no passado. O sentimento antiárabe também cresceu entre judeus em Israel, incluindo entre os judeus árabes. Mas, insisto, nem sempre foi assim. 


Créditos Ex-Blog do Cesar Maia

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